O impacto do tarifaço dos EUA na indústria brasileira de dispositivos médicos
Nos últimos meses, a indústria brasileira de dispositivos médicos tem enfrentado um novo desafio geopolítico: a imposição de tarifas elevadas pelos Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump. As medidas protecionistas, que chegam a sobretaxas de até 50%, afetam diretamente o setor, ao tornar as exportações brasileiras mais caras e menos competitivas. O cenário é particularmente sensível, já que os EUA representam o principal destino dos produtos brasileiros dessa indústria.
Mais do que uma questão comercial, o tarifaço escancara vulnerabilidades estruturais do Brasil na área da saúde — especialmente a dependência de insumos e componentes importados. Diante desse novo cenário, o setor se mobiliza para mitigar riscos e acelerar medidas de reindustrialização.
Exportações em alta, mas sob risco
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO), o Brasil exportou, em 2024, cerca de US$ 1,17 bilhão em dispositivos médicos — um crescimento de 24,6% em relação ao ano anterior. Os Estados Unidos absorveram US$ 276,88 milhões desse total, o que representa 23,58% das exportações brasileiras do setor. Esse crescimento, contudo, agora está em xeque.
As sobretaxas impostas pelo governo norte-americano têm o objetivo de proteger a indústria local e conter a entrada de produtos de países considerados “desleais” comercialmente, como China, Vietnã, Malásia e Filipinas. Porém, o impacto colateral recai também sobre o Brasil, por conta da complexidade da cadeia global de produção, onde insumos e componentes atravessam diversos países antes de se tornarem produtos acabados.
Cadeia produtiva globalizada e fragilizada
De acordo com Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da ABIMO, a cadeia de dispositivos médicos é altamente internacionalizada. Muitos produtos brasileiros utilizam componentes importados de países asiáticos, agora atingidos pelas tarifas dos EUA. Isso significa que, mesmo empresas que produzem localmente enfrentam aumentos de custo e risco de desabastecimento.
“Quando os EUA impõem barreiras comerciais, todos os elos da cadeia são afetados. O Brasil sente o impacto na compra de insumos e na competição com outros mercados”, afirma Fraccaro.
Além disso, a busca dos EUA por novos fornecedores, após restringirem o acesso aos asiáticos, aumenta a disputa global por matéria-prima, encarecendo ainda mais os custos para países como o Brasil.
Pressão sobre pequenas e médias empresas
O impacto das tarifas é especialmente sentido pelas pequenas e médias empresas do setor, que já operam com margens reduzidas e menor capacidade de absorção de choques externos. O tarifaço compromete não apenas a rentabilidade dessas empresas, mas também sua capacidade de planejamento e de inovação.
Fraccaro alerta para um efeito dominó: “Com custos mais altos, empresas reduzem investimentos, postergam lançamentos e perdem competitividade tanto no mercado interno quanto externo”.
Outro ponto de atenção é a redução de liquidez das companhias, que passam a ter mais dificuldades para financiar novos projetos ou ampliar linhas de produção. Esse efeito compromete o ecossistema da indústria nacional como um todo, que já enfrenta obstáculos como alta carga tributária e burocracia excessiva.
Insumos importados e risco de escassez
A pandemia da COVID-19 escancarou a dependência brasileira de produtos médicos importados, e agora, o tarifaço reacende essa preocupação. Muitos dos insumos considerados críticos — como sensores, válvulas, chips e materiais biotecnológicos — ainda são majoritariamente importados.
Segundo levantamento da Secretaria de Comércio Exterior, cerca de 70% dos componentes utilizados na fabricação de dispositivos médicos no Brasil vêm do exterior. Quando essas importações sofrem oscilações de preço ou disponibilidade, o efeito se espalha por toda a cadeia de saúde, desde a produção industrial até os hospitais.
Hospitais e clínicas, por sua vez, enfrentam atrasos em entregas e aumento de custos, o que pode comprometer o atendimento aos pacientes e inflar ainda mais os custos operacionais do sistema de saúde, tanto público quanto privado.
Reindustrialização: urgência estratégica
Diante desse cenário, especialistas e lideranças do setor defendem a urgência de um processo de reindustrialização da saúde no Brasil. Isso inclui o fortalecimento da produção local de insumos estratégicos e a diversificação de fornecedores internacionais, com acordos comerciais mais equilibrados.
A ABIMO tem dialogado com órgãos como o Ministério da Saúde, o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e o Itamaraty para articular ações de médio e longo prazo.
Entre as propostas estão:
-
Criação de políticas industriais específicas para saúde, com estímulo à inovação e nacionalização de tecnologias;
-
Redução de impostos sobre a importação de insumos críticos, para aliviar os custos enquanto a produção local se estrutura;
-
Fomento à pesquisa e desenvolvimento com foco em autonomia tecnológica;
-
Adoção de compras públicas inteligentes, que priorizem produtos nacionais e inovadores;
-
Renegociação de acordos comerciais multilaterais, para garantir acesso competitivo a mercados estratégicos.
Concorrência acirrada no mercado global
Com a reorientação das importações norte-americanas para fora da Ásia, outros países — como México, Canadá e Alemanha — ganham espaço na disputa por fatias do mercado. O Brasil precisa, portanto, agir rapidamente para não perder relevância comercial.
A indústria brasileira tem qualidade reconhecida, mas enfrenta desafios logísticos, cambiais e estruturais que reduzem sua atratividade internacional. Sem uma política coordenada, o país pode ser empurrado para a periferia do mercado global de dispositivos médicos — um segmento que movimenta mais de US$ 550 bilhões anuais em todo o mundo, segundo a Fortune Business Insights.
Um alerta necessário para o futuro
O tarifaço de Trump não é apenas uma medida comercial isolada — ele revela a fragilidade de setores estratégicos da economia brasileira diante de choques externos. Para o setor de dispositivos médicos, o episódio reforça a importância de políticas industriais integradas, com foco em inovação, soberania e segurança sanitária.
A busca por autonomia tecnológica e produtiva na área da saúde não pode mais ser adiada. Se o Brasil quiser garantir acesso estável e competitivo a equipamentos médicos — essenciais para o bem-estar da população —, precisará agir com visão estratégica, planejamento e cooperação público-privada.
Como resume Fraccaro, da ABIMO:
“Não se trata apenas de proteger empresas. É uma questão de garantir a capacidade do país de cuidar de sua população em momentos de crise. A saúde precisa ser tratada como setor essencial da política industrial.”
Fontes:
Valor Econômico;
Folha de São Paulo;
ABIMO;
CNN Brasil;
Secretaria de Comércio Exterior.