A crise climática deixou de ser apenas uma preocupação ambiental e passou a ocupar um papel central no debate sobre saúde pública.
O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos, como enchentes, ondas de calor e tempestades severas, tem provocado impactos diretos no bem-estar da população e no funcionamento dos sistemas de saúde, tanto públicos quanto privados.
Esses efeitos expõem fragilidades estruturais históricas e reforçam a necessidade de integrar a saúde às políticas climáticas, com foco especial na proteção das populações mais vulneráveis.
Impactos diretos da crise climática na saúde
A crise climática afeta os sistemas de saúde de diferentes maneiras que, muitas vezes, acontecem ao mesmo tempo:
Aumento da demanda por atendimento, com agravamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e infecciosas;
Danos à infraestrutura, que comprometem unidades de saúde, equipamentos e cadeias de abastecimento;
Impactos nos determinantes sociais da saúde, como insegurança alimentar, deslocamentos forçados e sofrimento psicológico.
Esse cenário gera sobrecarga dos serviços e dos profissionais, dificultando respostas rápidas em momentos críticos.
Investimentos e adaptação do SUS
No Brasil, o Ministério da Saúde anunciou um investimento de R$ 9,8 bilhões para ações de adaptação no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa inclui a construção de novas unidades e a adequação das existentes para enfrentar os efeitos da crise climática.
Entre as medidas, destaca-se o Guia Nacional de Unidades de Saúde Resilientes, que orienta UBS, UPAs e hospitais sobre padrões de construção e adaptação, como:
Estruturas reforçadas;
Autonomia de energia e água;
Sistemas de inteligência predial;
Protocolos de segurança para eventos extremos.
Essas diretrizes passaram a integrar os projetos do Novo PAC Saúde e contam com o apoio de especialistas de instituições como Fiocruz, Anvisa e OPAS.
AdaptaSUS e planejamento de longo prazo
As ações fazem parte do AdaptaSUS, plano apresentado durante a COP30, que estabelece 27 metas e 93 ações a serem implementadas até 2035. O objetivo é preparar a rede de saúde para um cenário climático cada vez mais desafiador, fortalecendo sua capacidade de resposta e adaptação.
Segundo especialistas, grande parte das unidades de saúde brasileiras foi projetada para uma realidade climática que já não existe mais, o que torna urgente a modernização das estruturas, principalmente diante de calor extremo e chuvas intensas.
Tragédias anunciadas e lições recentes
Eventos recentes reforçam o alerta. As enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, atingiram diretamente mais de 876 mil pessoas, causando mortes, desaparecimentos e danos severos a serviços essenciais, incluindo unidades de saúde.
Outro exemplo foram os tornados registrados no Paraná, que destruíram estruturas de atendimento, interrompendo serviços como vacinação e acompanhamento de gestantes.
Essas situações mostram que a crise climática não é um risco futuro, mas uma realidade que já impacta a vida das pessoas e a capacidade de resposta do sistema de saúde.
Sistemas de saúde sob ameaça global
Dados apresentados durante a COP30 indicam que mais de 60% da população mundial já sente os impactos das mudanças climáticas na saúde. Sem uma rápida descarbonização, o número de unidades de saúde ameaçadas pode dobrar até meados do século.
Atualmente, estima-se que um em cada 12 hospitais no mundo paralisa suas atividades devido a eventos climáticos extremos, evidenciando a necessidade de medidas urgentes de adaptação e prevenção.
Caminhos para um sistema de saúde mais resiliente
Diante da crise climática, especialistas apontam ações prioritárias para fortalecer os sistemas de saúde:
Infraestrutura resistente
Unidades preparadas para inundações, calor extremo e falhas de energia, com geradores, sistemas de backup e logística alternativa.
Vigilância integrada
Uso conjunto de dados climáticos, ambientais e epidemiológicos para antecipar surtos e riscos à saúde.
Profissionais capacitados
Capacitação contínua, condições adequadas de trabalho e proteção para quem atua na linha de frente.
Inovação e produção estratégica
Investimentos em pesquisa, tecnologia e produção nacional de insumos essenciais.
Governança e colaboração
Integração entre saúde, meio ambiente, saneamento e comunidades, com foco em equidade e justiça climática.
Novos protocolos e valorização profissional
Além da infraestrutura, a resposta à crise climática exige novos protocolos de emergência e investimento na formação dos profissionais de saúde. Iniciativas como cursos da Fiocruz, da UNA-SUS e capacitações promovidas pelo Ministério da Saúde ajudam a preparar o SUS para cenários extremos.
Avanços recentes também incluem a regulamentação da profissão de sanitarista, fortalecendo a saúde coletiva e reconhecendo o papel estratégico desses profissionais na resposta às emergências climáticas.
Desafio final: transformar planos em ação
O maior desafio agora é garantir que os planos saiam do papel. Restrições políticas e orçamentárias ainda limitam a implementação de ações concretas, mas a crise climática deixa claro que adiar decisões pode custar vidas.
Adaptar os sistemas de saúde não é apenas uma escolha estratégica, é uma necessidade urgente para garantir atendimento, dignidade e proteção à população em um cenário de mudanças cada vez mais intensas.
Fontes:
Mnistério da Saúde;
IBGE;
Fiocruz;
Saúde Business.



