Farmácias virando hubs de saúde: mito ou realidade?
Nos últimos anos, as grandes indústrias farmacêuticas têm defendido a ideia de transformar farmácias em verdadeiros “hubs de saúde”, oferecendo atendimentos médicos, testes rápidos e até consultas de telemedicina. A promessa é ampliar o acesso da população a serviços básicos e reduzir custos para o sistema de saúde. Mas será que essa proposta se sustenta na prática?
Enquanto o setor privado apresenta essa visão como tendência, os dados da saúde pública, a legislação brasileira e a experiência internacional revelam limitações importantes que precisam ser consideradas.
A força da Atenção Primária no Brasil
O Sistema Único de Saúde (SUS) conta, desde 1994, com a Estratégia de Saúde da Família (ESF) como principal porta de entrada da população na Atenção Primária. De acordo com o Ministério da Saúde, mais de dois terços dos brasileiros têm cobertura por equipes multiprofissionais, responsáveis por consultas, acompanhamento contínuo e prevenção de doenças.
Pesquisas publicadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que a ESF é mais eficiente em termos de custo-benefício do que modelos fragmentados de assistência, além de reduzir internações hospitalares desnecessárias. Ou seja, quando falamos em ampliar o acesso, o que já existe no SUS demonstra resultados concretos, enquanto a proposta de clínicas dentro de farmácias ainda carece de evidências robustas.
Experiência internacional: o caso Walgreens
O caso Walgreens foi uma experiência negativa dessa tentativa de transformar as farmácias em hubs de saúde no Estados Unidos. A rede Walgreens tentou transformar suas lojas em centros de atendimento primário por meio do projeto VillageMD. No entanto, em 2024, a empresa anunciou o fechamento de 1.200 unidades e a descontinuação do modelo.
Entre os motivos, segundo reportagens da Reuters e da CNN Business, estão prejuízos bilionários e a baixa adesão dos pacientes. Mesmo em um país com regulamentação mais flexível e maior presença do varejo no setor de saúde, o projeto não se mostrou financeiramente viável.
Esse caso levanta um alerta: se não funcionou em um mercado como o norte-americano, quais seriam as chances de sucesso em um sistema de saúde como o brasileiro, que já tem uma estrutura consolidada de atenção primária?
Barreiras legais e regulatórias no Brasil
Outro ponto relevante é a legislação. A Lei nº 5.991/73 e resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM) deixam claro que farmácias não podem oferecer consultas médicas ou funcionar como intermediárias de telemedicina.
Durante a regulamentação da telemedicina no país, o Congresso Nacional reforçou essa restrição, estabelecendo que consultas devem ocorrer em ambientes clínicos fiscalizados e adequados. Portanto, mesmo que haja vontade do mercado, o arcabouço legal brasileiro não permite que farmácias assumam plenamente esse papel de clínicas de saúde.
Exames rápidos: segurança em debate
A realização de testes laboratoriais rápidos em farmácias é outro ponto que desperta debate. Segundo a Anvisa, muitos estabelecimentos não aderem aos programas de Controle de Qualidade (CQ), colocando em risco a confiabilidade dos resultados.
Sem um ambiente controlado e profissionais devidamente capacitados, há risco de falsos negativos ou positivos, comprometendo diagnósticos e atrasando tratamentos. Por isso, especialistas defendem que exames sejam realizados em laboratórios clínicos, onde há protocolos rigorosos de segurança e padronização.
O papel das farmácias: complemento, não substituição
É inegável que as farmácias têm um papel importante na saúde pública: são pontos de acesso rápido, oferecem orientação farmacêutica e podem auxiliar em programas de vacinação e acompanhamento de doenças crônicas.
No entanto, transformá-las em “hubs de saúde” completos ainda enfrenta barreiras econômicas, legais e técnicas. O caminho mais sustentável parece ser integrá-las como complemento às políticas públicas já existentes, em vez de tentar substituí-las.
Dados X narrativa de mercado
Os discursos sobre farmácias como hubs de saúde podem soar atraentes, mas até o momento faltam evidências científicas e econômicas que sustentem essa promessa.
Enquanto isso, a Estratégia de Saúde da Família segue mostrando resultados concretos, com cobertura crescente, melhoria de indicadores e maior custo-benefício para a sociedade.
Mais do que apostar em soluções de mercado com eficácia duvidosa, o desafio real do Brasil é fortalecer o SUS e garantir que o acesso à saúde aconteça de forma universal, segura e baseada em evidências.
Fontes:
Saúde Business;
Ministério da Saúde;
Agência Brasil;
CNN Business;
Anvisa;
Conselho Federal de Medicina.